
Os peptídeos — cadeias de aminoácidos maiores que uma molécula pequena, mas menores que um anticorpo — são usados como medicamentos há décadas. O que torna 2026 digno de destaque é a densidade de resultados concretos em um único ano, a maioria em doenças metabólicas e oncologia, as duas áreas em que hoje se relatam mais de 1.200 peptídeos em desenvolvimento clínico (Nature, Signal Transduction and Targeted Therapy, 2024). Quatro coisas concretas se moveram neste ano.
A linha das incretinas já havia subido de um receptor para vários: a tirzepatida (GIP + GLP-1) produziu até cerca de 21% de perda média de peso em 72 semanas no SURMOUNT-1 (NEJM, 2022), e o agonista triplo retatrutida (GIP + GLP-1 + glucagon) produziu 24,2% em 48 semanas na fase 2 (NEJM, 2023).
Em maio de 2026, a Eli Lilly divulgou a primeira leitura de fase 3 da retatrutida. No TRIUMPH-1 (2.339 participantes), a redução média de peso em 80 semanas foi de 17,6%, 23,7% e 25,0% nas doses de 4, 9 e 12 mg, ante 3,9% com placebo; em um subgrupo com IMC ≥35 que tolerou o escalonamento até a dose máxima, as reduções chegaram a cerca de 30% em 104 semanas. As descontinuações por eventos adversos foram de 4,1%, 6,9% e 11,3% nas três doses ante 4,9% com placebo (Eli Lilly, 2026; AJMC, 2026). As leituras do TRIUMPH-2 (com diabetes tipo 2) e do TRIUMPH-3 (com doença cardiovascular estabelecida) são esperadas para o fim de 2026.
A história mais recente de 2025–2026 é uma via hormonal diferente. A ativação do receptor de amilina reduz o peso corporal por um mecanismo de saciedade distinto do das incretinas, e a classe avançou por conta própria neste ano, e não como mais uma variante de GLP-1.
Em 5 de março de 2026, a Roche/Genentech anunciaram resultados positivos de fase 2 para a petrelintida, um análogo de amilina de ação prolongada de administração semanal: no ZUPREME-1 (493 participantes), produziu até 10,7% de perda média de peso na semana 42 ante 1,7% com placebo, com uma tolerabilidade gastrointestinal descrita pela empresa como semelhante à do placebo — sem vômitos na dose máxima eficaz e sem descontinuações por eventos gastrointestinais — e um início de fase 3 previsto para o fim de 2026 (Roche, 2026). Separadamente, o agonista seletivo de amilina eloralintida, da Eli Lilly, produziu reduções médias de até 20,1% em 48 semanas ante 0,4% com placebo em um ensaio de fase 2 com 263 pacientes, com náusea e fadiga de leves a moderadas como eventos adversos comuns (The Lancet, 2025).
A abordagem de combinação também chegou aos reguladores. O CagriSema combina o análogo de amilina cagrilintida com a semaglutida; produziu uma redução média de 22,7% em 68 semanas no ensaio de fase 3 REDEFINE 1 (NEJM, 2025), e a Novo Nordisk o submeteu à FDA em dezembro de 2025, com decisão prevista para cerca de outubro de 2026 (Novo Nordisk, 2025).
Os peptídeos foram historicamente injetáveis, porque o intestino os degrada e a biodisponibilidade oral ficava abaixo de cerca de 1%. Duas mudanças estruturais já estão no mercado ou perto disso.
Em 22 de dezembro de 2025, a FDA dos EUA aprovou o comprimido oral de Wegovy — semaglutida oral 25 mg uma vez ao dia, formulada com o potencializador de absorção SNAC — para controle crônico de peso e redução do risco cardiovascular; é o primeiro GLP-1 oral autorizado para controle de peso, com lançamento nos EUA no início de janeiro de 2026; no ensaio OASIS 4, produziu 16,6% de perda média de peso quando houve adesão (Novo Nordisk, 2025; AJMC, 2025). No lado do formato, a maridebart cafraglutida (MariTide) é um conjugado peptídeo-anticorpo — um anticorpo antagonista do receptor de GIP ligado a dois peptídeos agonistas de GLP-1 — cujo arcabouço de anticorpo permite a administração subcutânea mensal; seu ensaio de fase 2 relatou até cerca de 20% de perda média de peso (NEJM, 2025), e a fase 3 está em andamento.
Fora da obesidade, a fronteira ativa dos peptídeos é a oncologia, onde o peptídeo é um ligante direcionador que leva um isótopo radioativo às células tumorais. Dois agentes estabeleceram a abordagem — o ¹⁷⁷Lu-DOTATATE em tumores neuroendócrinos (NETTER-1: 65% ante 11% de sobrevida livre de progressão em 20 meses, NEJM 2017) e o ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 no câncer de próstata (VISION: 38% menos risco de morte, hazard ratio 0,62, NEJM 2021). O pipeline seguiu avançando em 2026: o ¹⁷⁷Lu-edotreotida (ITM-11) da ITM para tumores neuroendócrinos gastroenteropancreáticos tem data-alvo de decisão da FDA em 28 de agosto de 2026 (McGuireWoods, atualização da indústria radiofarmacêutica, 1º trimestre de 2026).
Os resultados do ano apontam em uma direção: a eficácia dos peptídeos na obesidade atingiu a casa dos vinte e poucos a cerca de 30% em dados de fase avançada, o conjunto de mecanismos ampliou-se das incretinas para a amilina e para conjugados de engenharia, um peptídeo oral entrou no controle de peso, e o pipeline oncológico de radioligantes avançou rumo a novas aprovações. O quadro não é uniforme — as descontinuações por eventos adversos aumentaram na dose mais alta de retatrutida, os resultados do CagriSema tiveram recepção mista frente às expectativas, os agentes de amilina e os conjugados estão em sua maioria em fases intermediárias, e a terapia com radioligantes ainda depende da expressão do receptor. Estes são os fatos documentados do ano, não projeções.
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